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Por quanto tempo?

Atualizado: Mar 25

Jéssica Kuhn

Quanto tempo vai durar a minha análise?” Será essa aquela tal “pergunta de 1 milhão de dólares” quando se fala em terapia psicanalítica? Então sempre é tempo de falarmos sobre tais estimativas.




Muitas vezes o paciente chega ao consultório muito ansioso, perguntando sobre o tempo de duração da análise. O que é perfeitamente compreensível, já que a pessoa recorre à terapia psicanalítica com o intuito de enfrentar e superar um problema, uma dificuldade que atrapalha a sua vida e da qual quer se livrar o quanto antes. Além disso, ela também quer se planejar, saber até quando deverá estender a rotina que então se inicia.


O tempo de análise é um assunto bastante controverso. E essa polêmica não diz respeito apenas à duração do tratamento - o tempo que se leva para receber alta - como também se estende ao tempo de duração e frequência das próprias sessões.


“Mas... em média?... Uma estimativa... ” Em relação à duração do tratamento, Freud afirmou que não se poderia prevê-lo, mas que o paciente deveria, sim, ser previamente alertado de que uma análise demanda tempo ("trata-se de um trabalho que exige um longo período de tempo"), o que para ele se justificava tendo em vista "a lentidão com quê se realizam as mudanças profundas em nossa mente - em última instância, a atemporalidade de nossos processos inconscientes". Sim, para o inconsciente não existe tempo nem espaço! Por isso, muitos sentimentos, emoções e padrões de comportamento que afetam a nossa vida adulta são inconscientemente repetidos durante anos, décadas e encontram muitas vezes suas raízes na infância, estando assim tão vívidos em nosso inconsciente a ponto de reger a nossa vida adulta.

A resposta que vem da teoria e também da experiência no consultório é de que cada caso clínico é único. Cada pessoa que chega para fazer análise é como se fosse a primeira, e a demanda de tempo é, portanto, uma questão que deve ser entendida caso a caso.


A análise é um caminho de descobertas e enfrentamentos particular do sujeito. A ética da psicanálise respeita justamente isso: o desejo do sujeito, observando e considerando seu próprio tempo e ritmo, atendo-se à particularidade de cada um/de cada paciente


Outro motivo que também diz respeito à impossibilidade de prever essa duração e que é muito curioso, interessante de se observar, é que a medida em que a análise progride, outras questões vão surgindo, vão sendo trazidas pelo paciente para serem também trabalhadas – logicamente, sempre respeitando-se o desejo do paciente.


Por isso tudo, não há como se estabelecer um tempo médio ou padrão para duração do processo analítico.


O que não quer dizer que a pessoa não irá sentir algumas melhoras já no início do tratamento.

Não tenho mais insônia, posso ter alta? É preciso alertar que muitas vezes a ausência dos sintomas que motivaram a pessoa a buscar o tratamento não implica necessariamente em alta. Isso porque esses sintomas podem ser apenas a manifestação de problemas outros que ainda persistem no inconsciente do sujeito. E enquanto eles não forem devidamente trabalhados, enfrentados e elaborados, esses mesmos sintomas podem futuramente voltar se manifestar. Mas evidentemente o desaparecimento dos sintomas pode sim estar relacionado à real resolução destas questões inconscientes.


Embora não se preveja nem se planeje o tempo de duração de uma análise, ela deve ter um fim. O próprio Freud dizia que a análise é finita. Ela não deve durar para sempre.

Apesar de questões profundas do sujeito tomarem um certo tempo, não se pode prolongar um tratamento desnecessariamente. O que está em jogo aqui é a ética do desejo do analisando e de seu analista. #tempodaanálise #psicanálise #freud #jéssicakuhn #inconsciente #duraçãodaanálise #sessãopsicanalítica #altapsicanalítica #ansiedade

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