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Pandemia – um medo coletivo e individual

Jéssica Kuhn


Você já parou para pensar em como está se sentindo nesses tempos de isolamento social? Estar ciente de suas emoções, reconhecer e nomear seus sentimentos ajuda a melhor compreendê-los e saber lidar com eles. Sim, esse é o primeiro passo para ter o domínio sobre suas emoções - o que, por sua vez, fortalecerá a sua segurança emocional e sua saúde como um todo.




Nesse momento em que o Brasil e o mundo vivem a pandemia do coronavírus, uma multiplicidade de sentimentos se coloca à nossa frente. Insegurança, medo, ansiedade e, sobretudo, luto.

Você que nos acompanha há mais tempo vai lembrar que já falamos aqui - no caso, eu, Jéssica Kuhn, no artigo "Luto - um processo a ser compreendido" (www.i-psi.org/post/luto-um-processo-a-ser-compreendido) – sobre ele. O contexto atual faz com que retomemos aquela conversa, afinal o luto está, sim, presente agora. Muitos tipos de luto ao mesmo tempo.

O virus nos ameaça com inúmeras perdas de todo tipo. O distanciamento social está nos obrigando a ficar separados das pessoas queridas por semanas e possivelmente meses. As celebrações e rituais da vida, desde batizados a casamentos, aniversários e funerais estão sendo adiados ou cancelados. Há o luto das escolas e universidades fechadas, o luto das happy hours com os amigos, do treino na academia, etc. Enfim: o luto pela perda da nossa rotina e da normalidade de nossa vida como a conhecíamos.

Entre a preparação e o sofrimento desnecessário

E como se não bastasse, ainda há o luto antecipado, que é aquele que sentimos quando há uma ameaça de perda! Quando, por exemplo, pensamos na morte dos nossos pais, ou quando recebemos um aviso de demissão ou o diagnóstico de alguma doença debilitante ou letal.

O termo "luto antecipatório" ou antecipado foi utilizado pela primeira vez pelo psiquiatra Erich Lindemann em 1944, observando as esposas de soldados que iam para a guerra. O fenômeno trata das experiências e reações emocionais que temos diante de uma perda ou de uma morte anunciada. É o luto que vem da insegurança sobre o futuro.

Esse luto antecipado pode ser ou não saudável. Saudável, quando por exemplo recebemos o aviso prévio de demissão e já começamos a economizar e buscar alternativas de trabalho. Já o luto antecipado patogênico (não saudável) é a mente indo para o futuro imaginando o pior cenário - o que nos leva para a ansiedade.

Tempos de incerteza compartilhada

Como disse recentemente o autor David Kessler, que se especializou em luto e escreveu livros com a psiquiatra Elizabeth Kübler-Ross: "Eu acho que não tínhamos perdido coletivamente o nosso senso geral de segurança como nesse caso. Individualmente ou em pequenos grupos, pessoas já sentiram isso. Mas todos juntos é algo novo. Estamos em luto em nível micro e macro”.

Um outro aspecto particularmente perturbador nessa pandemia é não sabermos quando o isolamento acaba ou quando ela própria termina. Mas como tudo na vida, ela também irá passar. A humanidade já experienciou várias pestes/epidemias e sobreviveu a todas elas. O mundo não acabou. Embora saibamos que nem todos os indivíduos sairão ilesos, lembrar que a espécie provavelmente irá permanecer ajuda a reduzir a sensação de destruição iminente pairando sobre nossas cabeças e ameaçando o futuro.

Relembrando, no texto publicado em 31 de outubro de 2019 ("Luto - um processo a ser compreendido" - Jéssica Kuhn) dizíamos que os estágios do luto não aconteciam de uma maneira linear e nem seguiam necessariamente uma ordem. E uma boa maneira de entender e gerenciar as suas emoções é identificar os diferentes estágios do luto que estamos atravessando nesta pandemia.

As cinco etapas do luto na pandemia

Vamos, então, conferir as cinco etapas do luto, e compreender como elas se aplicam ao momento que estamos vivendo.

O luto é um processo que se manifesta através de cinco estados, ou fases: negação, raiva/culpa, negociação, depressão e aceitação.

• Negação: esse vírus não é tudo isso

• Raiva: vocês estão nos fazendo ficar em casa e nos privando de muitas coisas

• Negociação: se estabelecermos o isolamento social, tudo vai melhorar!

• Depressão: eu não sei quando isso irá terminar e nem o que será de nós.

• Aceitação isto está acontecendo e eu vou ter que aprender a lidar com a situação

É na aceitação que se encontra o nosso poder e o nosso domínio, a autonomia para praticar alguma intervenção com consequências: posso lavar as minhas mãos e manter uma distância segura, e estarei em segurança.

O que fazer com as emoções nessa hora?

Existem algumas dicas úteis de como lidar com este momento e ter um melhor domínio sobre as próprias emoções.

• Pense e foque no que você pode controlar: estou me cuidando, seguindo todas as orientações

• Pense em como você pode abrir mão daquilo em que você não tem como interferir: você não tem controle sobre o seu vizinho, que sai a toda hora, por exemplo. O que ele faz está fora do seu controle. Mas está no seu controle ficar longe dele e lavar suas mãos, foque nisso.

• Quando vierem pensamentos e sentimentos negativos, de pânico e desespero, force-se a achar a resposta positiva e tranquilizadora para eles. Lembre-se: nenhum cenário deve ser ignorado, mas também nenhum deve dominar. Pense, por exemplo: não vai morrer todo mundo, nem todos que adoecem têm o agravamento da doença, mesmo os que veem seus estados de saúde agravados, nem todos esses irão morrer. Estamos tomando todas as providências, seguindo as orientações corretamente para não nos infectarmos.

• Não fuja dos seus sentimentos. Permita-se senti-los e assim identificá-los, aprendendo a lidar com suas emoções.

• Seja paciente com as pessoas. Cada um está tentando lidar com esse momento a seu modo.

Não há dúvida de que estamos passando por um momento histórico e desafiador. E, com certeza, todos nós temos muito a aprender com ele. E lembre-se: tudo passa. Esse período também irá passar.

Não deixe de procurar ajuda profissional se você não estiver conseguindo controlar suas emoções. A Psicanálise pode te ajudar a manter-se emocionalmente equilibrado nesse momento.

Deixe seus comentários aqui. É muito importante para nós a sua opinião, a sua experiência. Nós, da i-PSI, queremos saber como você está sentindo esta situação.

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