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“Novembro Azul” – cuidados com a saúde física e psíquica do homem


Todo novembro somos lembrados da importância da prevenção e diagnóstico precoce do câncer de próstata pela campanha “Novembro Azul”. Ações de conscientização são realizadas por entidades nos quatro cantos do mundo.


E não é pra menos: só no Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) revela que o câncer de próstata é o segundo câncer mais comum no sexo masculino, ficando atrás apenas do câncer de pele não melanoma. É a segunda causa que mais mata homens em nosso país. Um olhar sobre perfil de pacientes, segundo o mesmo instituto, mostra que homens a partir dos 50 anos são as maiores vítimas, seguidas de pessoas com presença da doença em parentes de primeiro grau, como pai, irmão ou filho.


Mas homens ficam doentes? Homens morrem?


Questões culturais no Brasil parecem querer dizer que não. A resistência do “sexo forte” a buscar consultas médicas regulares é alta, mas é ainda mais alta a resistência a buscar prevenção.


O preconceito com o exame de toque retal é forte no Brasil, conforme aponta a pesquisa realizada pelo Datafolha para a Sociedade Brasileira de Urologia, pelo Instituto Oncoguia e pela farmacêutica Bayer em 2017, que revela que 35% dos homens brasileiros entre 50 e 59 anos nunca fizeram o exame. E quando questionados por que não procuram ou desconsideram a importância do exame, 48% responderam que é “por machismo” e 21% que “não é coisa de homem”.


Saúde mental – um olhar sobre as questões emocionais


Tais crenças limitantes explicam o constrangimento, parte da dor e o sentimento de violação dos tabus sexuais quando, para se fazer um diagnóstico preciso sobre a ocorrência ou não do câncer de próstata, o homem é submetido ao toque retal e à biopsia. Nitidamente, essa é uma patologia que invade dimensões do self – em termos simplificados, a percepção que a pessoa tem de sua própria personalidade.


A maioria dos homens diagnosticados e que passam pela cirurgia ou tratamento oncológico da próstata não morre por causa dessa patologia. Ainda assim, como toda doença que pode ameaçar a vida traz um estresse profundo, o impacto do diagnóstico do câncer de próstata interfere diretamente na saúde psíquica do indivíduo. Em casos onde a estrutura psíquica do paciente é frágil, há uma dificuldade maior em lidar com o estresse do diagnóstico e suas consequências. Assim, quadros depressivos ou de ansiedade e déficit cognitivo podem levar ao desespero e prejudicar seriamente o funcionamento psicossocial do indivíduo, e um ajustamento psicológico é imprescindível.


O diagnóstico, o tratamento oncológico ou a cirurgia de câncer de próstata tem impacto sobre a saúde mental do paciente, podendo gerar tristeza, medo, angústia e insegurança, diminuindo a autoestima e propiciando sintomas como ansiedade e transtornos depressivos. O grau de ansiedade tende a aumentar conforme o tipo de diagnóstico, a evolução da doença ou a agressividade do tratamento oncológico. A depressão concorre para a diminuição da adesão ao tratamento, o não comparecimento ao tratamento, e considerável redução da qualidade de vida.


Câncer de próstata, vida sexual e saúde mental


Questões relacionadas ao impacto que a cirurgia ou o tratamento oncológico pode causar na vida sexual do homem são os principais motivos de desequilíbrio emocional e transtornos psicológicos. Ele se vê atormentado por dúvidas que envolvem sua noção de sexualidade e masculinidade. Complicações como disfunção erétil, incontinência urinária, capacidade de sentir prazer e de se satisfazer sexualmente são preocupações propiciadoras de sintomas depressivos e ansiosos. Ainda que essas complicações possam nem ser experimentadas pela maioria dos pacientes, considerar essa possibilidade é um grande gerador de estresse.


E também por razões culturais, é de senso comum que pacientes homens têm maior resistência em buscar ajuda profissional em consultórios de psicanálise, devido a uma ideia equivocada e estigmatizante de que a busca por ajuda psicológica pressupõe um “diagnóstico de doença mental”. Essa recusa muitas vezes traz o agravamento dos sintomas psicológicos, os quais interferem diretamente nos resultados do tratamento físico.


Sintomas e sinais – quando buscar a Psicanálise


O próprio indivíduo e as pessoas de seu convívio devem estar atentos aos comportamentos e sinais que possam demonstrar que a saúde mental demanda cuidados.


Em geral, situações como dificuldade para dormir, diminuição do apetite, desinteresse por atividades costumeiras, isolamento social, quebra de algum comportamento de lazer e retraimento são alertas para a necessidade de se buscar ajuda de um profissional da área de saúde.


É importante, ainda, observar se existem pensamentos mórbidos, especialmente na faixa etária mais elevada, acima dos 70 anos, onde há maior risco de suicídio, conforme dados do Ministério da Saúde.


Uma vez que os sintomas da depressão podem não ser distinguíveis dos sintomas próprios do câncer, tais como fadiga, dor e anorexia, é necessária a intervenção do profissional da saúde mental que identificará a depressão por outros indícios, como baixa autoestima, culpabilidade profunda e anedonia – a incapacidade de sentir prazer em atividades normalmente agradáveis.


O mesmo ocorre com os sintomas de transtorno de ansiedade, que podem ser confundidos com sintomas do tratamento desse câncer: náusea, vômitos, desconforto gastrointestinal e dor torácica. O indício da ansiedade está no quanto a preocupação está presente na vida do indivíduo, de forma ruminativa.


Prevenir é sempre a melhor forma de se manter saudável, tanto física como psiquicamente. Mais que amor próprio, prevenir-se é também um ato de coragem!


Maristela Napolitano


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