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Minha visita ao Freud Museum - Londres – Março/2020

Por Horácio Prol Medeiros

No primeiro domingo de março de 2020 realizei um sonho, que acredito ser o sonho de todo psicanalista: conhecer a casa onde Freud – que amanhã estaria completando 164 anos de vida – viveu em 1939 e atendeu seus pacientes no último ano de sua vida, três meses antes de eclodir a Segunda Guerra Mundial


Cheguei, vindo de Paris de trem pelo Eurotúnel, e me restavam apenas três horas para fazer a visita, pois o museu no domingo fecha às 17h.

O museu fica em uma rua muito agradável e bem arborizada denominada Maresfield Gardens, e fica próxima ao Regent’s Park, um dos muitos parques reais londrinos.

Próximo, também, temos o Primrose Hill Viewing Point, onde se tem uma bela vista de Londres, tanto de dia como de noite, e eu tive a oportunidade de ver a cidade iluminada, o que é uma imagem deslumbrante.

A chegada ao museu

Chegando ao museu me deparei com uma palestra em inglês para umas 20 pessoas. Mesmo assim, permitiram a minha entrada, e fui direto até o local onde ocorrem as vendas de livros e lembranças, que fica nos fundos da casa, pois não dava para acompanhar a palestra, que já estava terminando.

Nesse espaço destinado a vender livros, lembranças, chaveiros, bonecos, fotos, tudo relacionado à casa e a Freud, conheci um brasileiro que trabalha ali, de nome Ricardo Rampim Koagura, um apaixonado por Freud.

Disse que foi a passeio a Londres e já estava lá havia dezesseis anos. Muito simpático, me atendeu super bem e ao final me acompanhou até a rua, e como percebeu que eu era apaixonado pelo tema, comentou que estava fazendo um doutorado para formação em Psicanálise, cuja tese era sobre Trotsky.

Mostrou-me onde era a faculdade e disse que em frente havia uma estátua gigante do Freud. Claro que fui até lá para conferir e bater umas fotos.

Porque Freud veio morar em Londres

Freud, fugindo dos nazistas mudou para Londres em 27 de setembro de 1938, juntamente com sua esposa Martha, sua cunhada Minna e sua filha Anna, além da empregada Paula Fichtl.

Morreu quase exatamente um ano depois, no dia 23 de setembro de 1939, e Ricardo, o brasileiro, funcionário do museu, me mostrou onde exatamente ele morreu.

Após a morte de Freud, a família ficou vivendo ali até a morte de Anna Freud, que se deu em 1982. Anna deixou em testamento sua última vontade para que a casa fosse transformada em museu, que foi aberto ao público em 1986.

Freud trouxe tudo que conseguiu na mudança que fez, mas teve que abandonar muitas coisas em função da ocupação nazista.

A casa de Freud

A casa é toda de tijolos, com dois andares e janelas brancas com um lindo jardim à frente. No térreo, você tem o hall de entrada, que hoje é a recepção para o museu. Logo após o hall de entrada há uma sala de jantar, e onde é a varanda aberta que dá vistas ao jardim de inverno fica a loja que vende lembranças do museu.

Em frente à loja, no fundo, está o jardim de inverno, e ao lado direito do hall de entrada existem duas salas. Achei muito interessante a da frente, onde há milhares de objetos de cerâmica, pois Freud adorava colecionar esses tipos de objetos, e por muitas vezes os ganhava de presente. São peças antigas gregas, romanas, egípcias e do Oriente. A maioria delas, Freud adquiriu em antiquários em Viena. Outras, trouxe diretamente de sítios arqueológicos que visitava. Dizem que essa paixão só perdia para seu hábito preferido de fumar charutos.

A sala dos fundos foi o lugar que mais me impactou, o gabinete onde Freud atendia estava intacto, tal qual no tempo em que ali viveu atendendo seus pacientes de Londres. Era exatamente igual ao de Viena, inclusive com as mesmas peças de lá trazidas, na mudança. O divã analítico original, trazido da Rua Berggasse, 19 (Viena), onde os pacientes se deitavam confortavelmente enquanto Freud, fora do alcance deles, em sua poltrona verde, escutava suas associações livres.

Toda a mobília da casa foi trazida de Viena na mudança. No gabinete havia um outro divã onde Freud veio a falecer, e uma escrivaninha onde escrevia seus artigos.

Como já citei acima, ele não pode trazer tudo de Viena, mas trouxe o que lhe mais agradava, como livros sobre arte, literatura, arqueologia, filosofia e história, bem como os de psicologia, medicina, psicanálise, e alguns livros de seus autores preferidos, como Goethe e Shakespeare. Há também obras de autores como Flaubert, Heine e Anatole France.

Ainda em seu gabinete e sala da frente, vários quadros e pinturas. Ao iniciar a visita você recebe um áudio-guia que conta em português a história de cada aposento e das mobílias, muito rica e interessante.

Pena que a história contada nos áudios não estava disponível em português, porém o Ricardo me indicou um livro sobre o museu, em inglês, que conta toda a história narrada nos áudio-guias. Claro que adquiri um exemplar, pois há muitas fotos no livro.

Na sala de vídeo ficam em exibição várias entrevistas de Freud e de outros personagens falando sobre ele. Este é também um espaço para mostras interativas.

A sala de Anna Freud

Subindo as escadas, você chega ao primeiro andar, onde há um patamar de escada, tipo um hall entre os outros três quartos, que hoje são a “Sala de Anna Freud, a sala de vídeo e a sala de exposições. Na sala de Anna há vários aspectos do seu trabalho. Anna nasceu em 1895 e foi a filha mais nova de Freud. Estudou para ser professora primária, mas acabou se tornando secretária do seu pai, e como secretária aprendeu de forma leiga a Psicanálise, e pode mesmo assim escrever dois livros, um sobre a Técnica da Análise da Criança e outro, mais famoso, “O Ego e os Mecanismos de Defesa”, em 1936.

Salvador Dali desenha Sigmund Freud

No patamar encontram-se alguns retratos de Freud, um deles pintado por Ferdinand Schmutzer, e outro por Salvador Dalí. Sobre esta obra, conta-se que o artista, quando apresentado a Freud em 1938, fez um croqui às escondidas e depois um desenho a bico de pena. Mostrou os desenhos a um amigo em comum que havia os apresentado, Stefan Zweig, mas este nunca os mostrou ao “Pai da Psicanálise”, pois achava que os mesmos prenunciavam a morte de Freud.

Isso, de fato, veio a acontecer pouco tempo depois.

A emoção da visita

É indizível a emoção de estar em um lugar onde morou e morreu o criador da Psicanálise, e que mesmo depois de 120 anos continua suscitando debates e discussões calorosas sobre sua obra, e sobretudo, sobre os textos que escreveu já no fim de sua vida. O mais impressionante é saber que foi ali que Freud viveu o último período de sua vida, e como conseguiram manter tudo intacto tal qual o período em que ali ele esteve.

Escutando os áudios você se emociona. Mas o que mais me tocou, de uma forma especial, foi ver a sala onde ele atendia, consigo até visualizá-lo fazendo isto, e onde ele morreu. Há uma energia ali difícil de explicar, só indo visitar para cada um saber.

Muitos brasileiros visitavam no mesmo dia em que fui, e o funcionário Ricardo disse que muitos brasileiros e argentinos costumam visitar o local. Não dá vontade de sair do museu, porém era um fim de tarde de domingo, e já estava na hora de fechar, e para meu azar às segundas e terças o museu fica fechado, e na quarta já partiria para Portugal, caso contrário, tenho certeza que teria voltado.

Algumas fotos que tirei no museu poderão ser vistas ao longo deste mês em nosso espaço no Twitter (@IIniciativa).


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