• i-PSI

Imunidade e estresse em tempos de pandemia

Por Maria Zélia Souza

Coronavírus, covid-19, pandemia... Estamos vivendo uma das fases mais desafiadoras de nossa geração, e a esta altura todos já devem ter incorporado em sua rotina diária hábitos de higienização e de cuidados, a fim de minimizar os riscos de contaminação e propagação do coronavírus.



Além destas medidas, que são essenciais para o controle da pandemia em nosso país, temos ouvido também uma informação que passa quase despercebida, diante do fluxo enorme de notícias que temos recebido nos últimos tempos.

Os médicos são enfáticos quando dizem que, na maioria dos casos, desde que não apresentem comorbidades já amplamente divulgadas pela mídia, a presença do vírus no organismo da pessoa acarreta apenas uma gripe leve, sem grandes consequências, e o fator primordial para que isto aconteça é a imunidade apresentada pela pessoa no momento da contaminação. Ao longo deste tempo veremos porque ela é tão importante e compreenderemos melhor o quanto ela se relaciona com os nossos níveis de estresse.

Esmiuçando a imunidade

Podemos dizer que “imunidade” é um mecanismo de defesa natural do organismo humano. Este mecanismo entra em cena sempre que o organismo está diante de substâncias estranhas a ele – os chamados “antígenos”. Ao identificar uma substância que não deveria estar ali, “invasora”, portanto, o sistema tenta eliminá-las, buscando recompor o equilíbrio ameaçado. Destruídas estas substâncias, seus efeitos sobre o organismo são neutralizados.

Todos nós possuímos um sistema imunológico inato, apto a combater os agentes invasores. Assim, podemos entender “imunidade” como a capacidade de nos defendermos de tais ataques. Quando a agressão vêm de elementos com os quais o organismo nunca esteve em contato há uma dificuldade maior, é preciso aprender a lidar com o invasor, descobrir sua vulnerabilidade e encontrar a forma certa de explorá-la. Ou seja, a primeira invasão ensina a enfrentar as seguintes, e essa “experiência de combate” é chamada de “imunidade adquirida”.

Um exemplo em macro escala ajuda a compreender o que ocorre em nível microscópico. A capacidade de defesa de um país (“imunidade”) não se resume à quantidade de tropas, armas e aparatos. São importantes também a logística que permite a rápida distribuição dos recursos onde eles são necessários, uma comunicação eficiente que possibilita a recepção e o cumprimento das ordens, a oferta de alimentos, a recuperação dos enfermos, a preservação da estrutura e da ordem nas áreas não afetadas diretamente pelo combate...

Transpondo o exemplo para o organismo humano, podemos imaginar o impacto que uma nutrição não adequada, ausência de atividade física, falta de hidratação e efeitos colaterais devido ao uso de determinados medicamentos, podem exercer sobre a nossa capacidade de defesa, fragilizando o conjunto e sobrecarregando o sistema. Isso sem falar nos casos em que a imunidade é minada por doenças como a AIDS, diabetes, hipertensão, complicações cardiovasculares...

Até meados dos anos 80, acreditava-se que o sistema imunológico atuava de maneira autônoma e independente do resto do organismo humano. A partir de 1981, Robert Ader, psicólogo e acadêmico americano, fundou com outros pesquisadores a Psiconeuroimunologia, que é o estudo da interação entre o comportamento humano e os sistemas nervoso, endócrino e imunológico do corpo, adotando uma abordagem multidisciplinar que incorpora Psicologia, Neurociência, Imunologia, Fisiologia e Genética.

Hoje entende-se que o sistema imunológico se fortalece quando adotamos uma alimentação rica em vitaminas, frutas e verduras, incorporamos atividades físicas equilibradas em nossa rotina e nos hidratamos através da ingestão de pelo menos um litro e meio de água por dia. No entanto, mesmo tais cuidados podem não ser suficientes se um fator altamente debilitante estiver presente: o estresse.

Os dois lados do estresse

Veja, ele é fundamental para nossa existência. É uma resposta física do nosso organismo a um ataque eminente, liberando uma mistura complexa de hormônios e substâncias químicas, como o cortisol, a adrenalina e noradrenalina, que preparam o corpo para a ação física de luta ou fuga. O estresse foi imprescindível para a preservação da espécie humana, pois o homem primitivo vivia exposto a possibilidades de ataques de outros animais ou tribos, e esta sobrecarga hormonal foi fator preponderante para o sucesso de sua defesa.

Nos dias atuais, o homem já não se encontra tão vulnerável a este tipo de ataque, mas continua acionando este mecanismo de defesa da espécie diante das mais variadas ameaças, reais ou imaginárias, que surgem no decorrer de sua vida. No nosso caso, é ainda pior: segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o brasileiro está entre os povos mais estressados do mundo – 70% da população ativa sofre com o estresse.

Situações de desconforto, irritação, desgaste, medo, frustração e preocupação provocam a liberação dos chamados hormônios do estresse. Quando em grandes quantidades, eles causam alterações na saúde, no humor e na qualidade de vida.

Situações de “estresse agudo” ocorrem quando o indivíduo se depara com um novo desafio, com notícias inesperadas, uma briga ou um erro no trabalho. Geralmente são episódios isolados que não têm efeito persistente no organismo. A experiência que nós, e praticamente todo o nosso planeta está vivendo hoje, é uma espécie de estresse agudo, que nos faz acionar este mecanismo de defesa natural, ativando no organismo substâncias que nos ajudarão a estar alertas e buscar meios de nos defender do ataque inimigo, criando soluções e alternativas, mantendo-nos em estado de vigília constante e principalmente nos tornar muito mais ativos.

Neste ponto, acaba sendo um estado positivo, pois recebemos uma “ajuda extra” para lidarmos com a nova situação. É por esta razão que, neste momento, a despeito da triste realidade que estamos vivendo com a presença deste vírus, testemunhamos também atitudes positivas e criativas de todos os lados trazendo soluções inovadoras, pesquisadores envolvidos na busca da cura ou vacina, governantes e sociedade em geral se movimentando para trazer as melhores soluções para um problema comum.

A questão é quando a permanência deste estado passa dos níveis aceitáveis, quando a experiência estressante afeta a personalidade e a visão de mundo da pessoa, quando o indivíduo vive em plena tensão, sempre esperando o pior, com níveis altos de irritação, raiva, rancor, medo, o que acaba causando ansiedade, insônia, dor de cabeça, tontura, respiração acelerada, taquicardia, entre outros sintomas perturbadores.

Isto é o que conhecemos como “estresse crônico”, que quando se estabelece passa a dominar o comportamento da pessoa. Ela deixa de viver na realidade para viver dentro de um ciclo de pré-ocupação, de constante medo, ao ponto de se sentir perseguida e mesmo poder desenvolver outras psicopatologias mais graves. Sabemos hoje que o nosso cérebro não diferencia a realidade da imaginação - o ato de se preocupar com uma ameaça real ou imaginária aciona o mesmo mecanismo de defesa, preparando-o para a fuga ou luta. Inconscientemente, a pessoa retroalimenta este ciclo interminável de estresse em seu organismo.

Uma forma de nos blindarmos deste estresse negativo é focar no presente, desenvolver uma atenção plena ao que realmente estamos vivendo, e ao mesmo tempo perceber o que é criação de nossa mente preocupada e quais são as ameaças reais. Eckart Tolle, escritor e conferencista alemão, pesquisou profundamente sobre este tema após vários episódios depressivos em sua vida. Em seu livro, “O poder do agora”, argumenta que, quando nos alinhamos ao momento presente, uma nova percepção da realidade surge, muito mais pura, mais profunda e poderosa.

Trazendo a mente para o “agora”

Se parece complicado ensinar a mente a fixar-se no momento presente, você pode experimentar algumas técnicas muito úteis:

1 – A meditação tem sido amplamente propagada como um exercício eficaz para “calar” a nossa mente. Os orientais costumam comparar a meditação a um copo cheio de água lamacenta. Se o deixarmos em cima de uma mesa, o que vai acontecer? A lama vai decantar e se depositar no fundo, e a água clara vai aparecer por cima, portanto, momentos de relaxamento farão o mesmo com nossos pensamentos e passaremos a enxergar com maior clareza, podendo então lidar com a realidade. A meditação não é um fim em si, mas um exercício que nos conecta a um poder que só o estado de “presença” é capaz de nos proporcionar.

2 – O poder da respiração também é um fator que hoje em dia é muito difundido, por ser um modo tão simples e eficaz de nos sintonizarmos com nossa energia vital. O simples ato de parar por alguns minutos e prestar atenção em nossa respiração já nos conecta com uma energia positiva, e soluciona os sintomas de hiperventilação. Os iogues podem nos ensinar muitas técnicas desta respiração, sendo uma delas a “respiração quadrada”, uma técnica clássica para o gerenciamento da ansiedade, que consiste em respirarmos em quatro etapas de igual duração: inspiração, pausa cheio, expiração, pausa vazio.

3- Aceitar o que não pode mudar, cultivar um olhar diferente para os problemas, encontrar um significado diverso para as experiências difíceis, são práticas que através de uma auto análise sincera e profunda, fazem com que a pessoa lide melhor com qualquer situação adversa que possa enfrentar. Muitas vezes a vida não é como gostaríamos que fosse, e neste momento praticarmos a aceitação e a resiliência pode fazer toda a diferença para encontrarmos novas soluções, redefinirmos prioridades para nossas vidas e para as relações interpessoais. Neste aspecto um processo terapêutico psicanalítico pode ajudar, interferindo positivamente no início de uma nova etapa.

A forma como poderemos lidar com as adversidades que todos nós estamos enfrentando agora é que vai definir o nosso futuro.

E você, como está lidando com este contexto de estresse em sua vida? Tem conseguido aproveitar de forma positiva a carga extra de energia causada pelos desafios presentes ou está se identificando com o medo, a ansiedade e a preocupação? Tem sido difícil escapar deste labirinto?

Nós da i-PSI queremos participar deste momento com você. Deixe nos comentários a sua experiência, quem sabe possamos ajudá-lo, ou a sua experiência possa ajudar mais alguém.

Queremos também lembrar que, mesmo cuidando da imunidade, é muito importante adotarmos o isolamento social, porque só ele permitirá conter o ritmo de expansão da pandemia, garantindo assim melhores condições de tratamento para as pessoas que necessitam de internação. Portanto, dentro do possível, fique em casa!

#MariaZéliaSouza #iPSI #Covid19 #coronavírus #confinamento #quarentena #preocupações #equilíbrioemocional #imunidade #sistemaimunológico #estresse #meditação #respiração

124 visualizações