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“Hohoho.... oh não! – O que acontece comigo no Natal?”


Natal, período de festas, compras, mesa farta, férias... e muita melancolia também.


É certo que muitos adoram essa época do ano e ficam felizes com ela. Em nosso país, a maioria das pessoas celebram o Natal. Mas também há os que se entristecem e até se deprimem. No consultório psicanalítico não são poucos os que se queixam de mal estar nessa época do ano. O periodo festivo faz com que a pessoa se lembre do que não tem a comemorar. O sentimento de angústia e a depressão do Natal já são velhos conhecidos dos psicanalistas, que dizem, brincando: “festas de final de ano equivalem ao ‘Seminário 10’ de Lacan” (cujo tema é "angústia").


A proximidade com o final do ano é um fator que interfere, e muito, no nosso estado emocional, contribuindo para aumentar o que vem sendo chamado de "Christmas Blues" – ou, no Brasil, “Depressão de Natal” - por psiquiatras e psicólogos. Sim, aquela belíssima música de Natal cantada por Elvis Presley (“Blue Christmas”) talvez tenha servido de inspiração e emprestado seu nome ao termo que define esse sentimento aparentemente sem motivo que invade algumas pessoas nos dias que antecedem o Natal.


De onde vem essa sensação?


O fato é que nesse período do ano revivemos algumas angústias ligadas aos ciclos de vida e morte e somos convidados automaticamente a fazer um balanço do ano que passou e da vida que temos vivido. Nos indagamos sobre as perdas e ganhos que tivemos. E muitas vezes, ficamos mais focados nestas últimas. E então vêm lembranças da nossa infância e dos sonhos que lá ficaram, de Natais passados, de nossos entes queridos que já não estão mais aqui conosco para partilharem desse momento festivo, que deveria ser de alegria e esperança.


Este é também o momento das reuniões familiares onde marcamos o nosso lugar na família. Se durante o ano podemos variar de posição e até evitar assumir alguma, na mesa da ceia de Natal os lugares estão postos. Ali é o lugar e a hora de mostrar as melhores intenções quanto à continuidade da família – e de lidar com todo o constrangimento quando não conseguimos marcá-lo a contento.


”Você não vai ficar de fora, vai?”


O Natal das propagandas na mídia e das mensagens altruístas nas redes sociais desaparece e a realidade se impõe bem à nossa frente. E como disse a jornalista e escritora Nina Lemos em seu artigo de 16 de dezembro de 2017 intitulado "Síndrome da Melancolia de Fim de Ano: saiba como não surtar com ela” (disponível em <ninalemos.blogosfera.uol.com.br>): "O Natal é uma timeline sem opção de block e sem possibilidade de ocultar".


Há, portanto, muitos fatores que contribuem para essa depressão de Natal e a explicam:



• Expectativas não realizadas


• Lembranças de Natais passados


• Saudades dos entes queridos ausentes


• Dificuldade de estar com a família nessa data


• Pressão social e da mídia para o consumismo


• Aumento do estresse


• Fadiga


Um desconforto que insiste em permanecer


As angústias especificamente relacionadas a este período do ano podem se manifestar de diversas maneiras: depressão, ansiedade, estresse, compulsão...


Embora estes quadros variem em intensidade, na maioria das vezes vêm acompanhados de alguns sintomas típicos e claros, como:



• Dores de cabeça


• Alterações do sono para mais ou para menos


• Mudança de apetite para mais ou para menos


• Diminuição da concentração


• Sentimento de culpa excessivo, constante ou inapropriado


• Desinteresse por atividades que antes davam prazer


Como atravessar esse período e – por que não? – até se divertir


A boa notícia é que é possível se preparar para esse período e, com planejamento, mesmo evitar algumas armadilhas. E mais: dá também para aproveitar a época para realmente buscar algo que possa contribuir para momentos mais alegres.


Este é um momento que de fato pode servir para balanços e reflexões, desde que isso não seja ditado por pressões externas. Sempre é válido ponderar sobre o que deu certo e deve ser repetido, o que não funcionou e deve ser revisto, os passos para tentar realizar aquele sonho antigo ao longo do ciclo que se inicia, como atingir coisas diferentes até mesmo se tornando uma pessoa diferente, o caminho para se qualificar cada vez mais em nível pessoal e profissional... Entretanto, talvez seja melhor evitar tomar decisões radicais nesse período entre o Natal e Ano Novo. Por que não deixar passar as festas, se possível deixando-se envolver por seus aspectos mais alegres?


Então antes de mentalizar e fazer seus pedidos, decisões e promessas de Ano Novo, a sugestão é que você pense bem e trate de querer aquilo que você realmente deseja, e então, sim, aposte na sua felicidade!


Algumas atitudes simples podem ajudar a desarmar (o que para muitos é) essa “bomba-relógio” que se aproxima:


• Minimizar as expectativas e tratar a festividade natalina como uma festa normal


• Não formular propósitos de mudança radicais para o Ano Novo


• Organizar previamente a sua programação para esse período de festas


• Não se isolar, estar com pessoas de quem você realmente gosta, com quem você se sinta bem


• Exercitar o pensamento positivo


• Praticar atividades ao ar livre


Desejo a você o que talvez seja um dos melhores presentes de Natal: a esperança de recomeçar a sonhar! E lembre-se: se realmente estiver sendo muito difícil resistir à melancolia e você perceber que os sentimentos estão se tornando depressivos ou obsessivos, não deixe de procurar ajuda profissional.



Jéssica Kuhn



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