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Eis o outro – bem diante de nós


Alteridade: este termo que ainda é pouco conhecido e difundido em nossa sociedade, e que reflete e resume o pensamento do filósofo judeu Emmanuel Levinas, servirá de apoio à nossa reflexão neste texto, sobre o respeito e aceitação da diversidade em nossas relações com o outro.


Vivemos em um mundo completamente diversificado em pensamentos, ideologias, raças, credos, opções sexuais, convivendo simultaneamente num espaço onde cada um individualmente ou em grupo tenta buscar a predominância daquilo que reflete a sua identidade, sua subjetividade.


Cada vez mais testemunhamos atitudes de exclusão e segregação, sendo possível constatar que a intolerância com o diferente é exercida nas diversas camadas da sociedade. Na verdade, estamos dizendo: aquele que tem uma ideologia diferente da minha, ou aquele que não pertence ao meu grupo, precisa ser excluído para que eu possa preservar minha existência.


Para Levinas, o pensamento ocidental desenvolveu-se como discurso de dominação, onde a hegemonia de determinadas raças e pensamentos se sobrepôs às minorias calcadas pela diversidade. A obra deste filósofo transmite o alerta de uma emergência ética de se repensar os caminhos da filosofia a partir de uma nova ótica, de se partir do eu em direção ao outro.


O significado de “alteridade”


O termo possui similaridade com aquilo que é conhecido como “empatia”, ou seja, a capacidade de se colocar no lugar do outro, sentir o que o outro está sentindo. Muito comumente se reflete na expressão “calçar os sapatos do outro”, a fim de entender a sua história e os sentimentos que o compõem em determinada situação. Porém, “alteridade” não chega ao nível de se colocar no lugar do outro, mas sim colocar-se ao seu lado a fim de compreender sua visão, sua experiência e entender os porquês de sua diversidade.

Alteridade é um exercício contínuo que cada um de nós deve fazer diariamente em nosso contato com as pessoas, a fim de aceitar o outro como ele é, como pensa, como age e acima de tudo respeitar a sua posição no mundo.


Como seres humanos, fomos habituados a exercer a nossa subjetividade, pautar as ações e pensamentos nos nossos princípios e valores introjetados através de nossas experiências passadas, e acreditamos que os nossos pensamentos e ações são absolutamente corretos.

É isto que nos torna únicos, é isto que define o nosso ego. A questão é quando temos que conviver em sociedade, quando nos deparamos com confrontos de posicionamento, com pessoas de culturas diferentes, raças diferentes, religiões que não pregam o mesmo que a nossa, pessoas que escolhem ter experiências totalmente diversas daquelas que escolhemos.


Um exercício de ética


Nestas ocasiões, se nos determinarmos a fazer o exercício da ética da alteridade, em vez de nos fecharmos em nosso posicionamento, nos compararmos e julgarmos a outra pessoa, conseguiremos nos abrir e conhecer a realidade do outro, compreendendo a sua posição, a sua escolha e até mesmo quem ele é.


Isto não significa absolutamente que devo modificar minha identidade, deixar de ser quem sou, mas aceitá-lo com suas diferenças, compreendê-lo e acima de tudo, acolhê-lo.

Um dos pilares da filosofia de Levinas é que eu tenho responsabilidade sobre o outro, sobre o seu bem-estar. Isso implica deixar de lado algo que poderia beneficiar somente a mim mesmo, por um bem maior que traga benefício para um maior número de pessoas.


O pensamento ecológico é um grande exemplo do exercício da alteridade, pois o nosso comportamento ético diante do uso dos recursos naturais que recebemos das gerações passadas determinará o bem-estar das gerações futuras, que nem conheceremos.

Tenhamos sempre em mente que o pensamento de exclusão de um outro ser humano, é, em última análise, o princípio da guerra.


Confraternizar e compartilhar vivências


Invertendo esta lógica, se queremos um mundo de paz, precisamos reintegrar todas as raças, todos os credos, e todos aqueles que pensam diferente de nós.

A Psicanálise, como ferramenta de busca de autoconhecimento, no caminho de fortalecimento da subjetividade do indivíduo, pode ajudar também este indivíduo com o ego bem constituído a enxergar o outro, a respeitá-lo, a compreender suas falhas, e mais do que tudo, de entender que cada um só consegue dar conta daquilo que realmente tem capacidade naquele momento. Este processo visa, através do entendimento do outro, à aceitação de ninguém menos do que si mesmo.


Quando o sujeito está bem consigo mesmo, ele consegue se relacionar de forma muito melhor e mais plena com todos que o rodeiam. A “diferença” que o outro apresenta não o incomoda, porque é um sujeito que já se trabalhou interiormente, enfrentou seus medos e sabe se posicionar sem perder sua identidade. Sem se sentir “ameaçado”, um sentimento que – de acordo com a Psicanálise – explica muitas manifestações que parecem alicerçadas no ódio, um ódio a uma parte de si que não se está preparado a aceitar e acolher.


Termino com uma frase de Carl Jung para nossa reflexão: “Tudo aquilo que nos irrita nos outros pode nos levar a uma compreensão melhor de nós mesmos”.


Quando as imagens da virada do ano mundo afora tomarem as nossas telas, possamos recordar que o dia primeiro de janeiro é um feriado oficialmente dedicado à “Confraternização Universal” e imbuir-nos deste sentimento e cultivá-lo ao longo de todos os dias de 2020.


Um ótimo ano para todos!



Maria Zélia de Souza



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